A Moda pela Filosofia

A primeira coisa que aprendi na faculdade de Moda foi que a roupa tinha três funções: proteção, pudor e enfeite. Isso fazia tanto sentido para mim, na época, que virou um hino ao longo da minha formação. Mas, hoje, depois de vinte anos, eu me pergunto: o que a moda tem realmente a nos dizer e ensinar?

Se formos olhar a moda pela finalidade a que se destina, diríamos que seu propósito é o de vestir e, portanto, as três funções básicas estão incluídas nela. Todos os detalhes acrescidos à roupa, como tecidos, estampas, recortes e aviamentos, são apenas um vai e vem de ideias e modificações variáveis de acordo com mudanças culturais, climáticas etc., que não significam nada além do que propõem.

Quando comecei a ler Moda, uma Filosofia, tive uma breve esperança de que estava lendo algo realmente relevante acerda do tema, pois falaria da moda por um olhar mais profundo e crítico, com base em pesquisas históricas e filosóficas feitas por intelectuais. Para mim, era de grande importância saber o que as pessoas de outras áreas falavam sobre moda e o quanto ela era relevante. Digo isso porque, ao longo dos anos em que atuei nesse mercado, sempre ouvi críticas sobre o papel da moda, que se resumia principalmente à vaidade, futilidade, entre outras coisas, distanciando-se cada vez mais de uma função importante e relevante para a sociedade.

Embora tenha visto uma mudança significativa na formação de pensamentos e valores para a indústria e sociedade, infelizmente a pandemia nos fez olhar novamente para a moda e repensar sobre o seu verdadeiro papel. Isso me levou a questionar e elaborar minha própria definição sobre moda, que considero um fenômeno social e passageiro, que se renova de tempos em tempos, alterando a estética e o comportamento das pessoas. Se isso é positivo ou negativo, depende de quem a consome...

Falar de moda pela análise filosófica é fazer indagações que possam dar um sentido mais amplo e reflexivo sobre o tema, de forma que nos faça pensar sobre aquilo que consumimos. Nós, estilistas, que vivemos mais focados no mundo comercial, criando "sonhos" para gerar desejos no consumidor, acabamos esquecendo de uma função mais subjetiva, que nem sempre a moda comunica: a que se destina, de fato, como propósito, que seja relevante para as pessoas e futuras gerações, além de ser lucrativa e comercial. E, à medida que vou conhecendo e lendo um pouco mais sobre a história da moda e seus desdobramentos, infelizmente vou descobrindo que falta muito para sermos relevantes, como uma causa que valha a pena abraçar, que faça diferença na vida das pessoas que irão usar. Mas isso é uma opinião pessoal e o que busco nas leituras é encontrar exatamente o contrário do que penso, na esperança de que minha profissão não tenha sido em vão. Quero deixar um legado de transformações positivas por meio da moda, mas, para isso, também preciso acreditar nela...

Nesta obra, o filósofo norueguês, Lars Svendsen, vai buscar todo tipo de informações, por meio de pesquisadores, psicólogos e estilistas ao longo dos séculos, para entender e explicar a moda pelo olhar filosófico, visando descobrir se a moda tem um significado, um sentido que valha mais do que aquilo que comunica.

Ao longo dos capítulos, ele traz provocações interessantes sobre a evolução da indumentária, o antes e depois da moda, as diferenças de costumes e culturas por territórios, buscando encontrar sentido em todas essas mudanças que deram origem à moda. Sua análise vai além do vestir, já que que a roupa é praticamente uma extensão do corpo. Ele vai mais fundo e nos questiona sobre por que vestimos isso e não aquilo, por que as saias estão mais longas ou mais curtas, por que consumimos uma marca X e não Y etc., e suas conclusões são tão interessantes que poderiam ser óbvias. Mas não são. São fruto de uma análise cheia de críticas que nos faz pensar até onde isso é verdadeiramente importante.

A melhor parte do livro está no apêndice, um resumo cujo tema é a crítica de moda. Segundo o autor, pouco se estuda sobre a moda de forma crítica, pautada em fatos e história e o quanto isso empobrece a classe, fazendo com que a moda seja vista apenas como consumo e futilidade. E como isso é um paradoxo, já que ele culpa a própria moda pelo seu declínio. Declínio aqui na função de significado. Para ele, uma roupa não tem significado, já que para isso ela deve comunicar mais do que o faz. Diferente da arte, que tem obras únicas e originais, a roupa é produzida em série e repetições, sendo descartada ao longo do tempo. Além disso, se ela foi concebida inicialmente com um significado, à medida que novas tendências surgem e trazem releituras, aquele significado de antes agora terá um novo, e assim sucessivamente. Ou seja, ela não é única, mas multável e efêmera. Isso quer dizer que mesmo que a moda comunique algo, é uma mensagem do momento e não única nem original. Por exemplo, a mensagem que ela transmitiu nos anos 1970, é completamente diferente de uma releitura criada nos anos 2020. Isso não acontece na Arte, cujas obras e seus significados permanecem para sempre, mesmo quando se tornam populares e de domínio público. O que o autor quer dizer com isso? Que a moda não precisa nem deve ser equiparada à arte e vice-versa, mas que encontre seu próprio valor diante de um mercado tão competitivo que visa principalmente o lucro em detrimento de propor conhecimento e sentido ao que faz. Dessa forma, ele critica revistas de moda, editores, patrocinadores e publicitários que tratam a moda como um espaço puramente comercial, prejudicando uma leitura construtiva sobre o tema. E caso isso não seja revisto, a tendência é ver a moda entrar cada vez mais em declínio, voltando a ser o que foi antes de sua primeira revolução: a função de meramente vestir…



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